A força da obra de Liane Roditi encontra-se nos desdobramentos, no
movimento, na transformação. São delicadezas que revelam a tensão existente entre
desgaste e permanência, continuidade e finitude.
Em seus trabalhos, atravessados pelo simbólico, a artista inscreve questões
acumuladas ao longo da vida, mas também a beleza encontrada em fragmentos do
cotidiano. Se o corpo é o eixo estrutural de seu trabalho, é nele que Liane encontra o
território da experiência, das constantes mudanças, das diversas camadas. A passagem do
tempo e as marcas que ficam na memória criam um trançado que evoca tanto a resistência
quanto o aprisionamento.
É no exercício da criação que a artista explora os mais significativos ângulos
para a abordagem de sua poética. Não esconde os andaimes, o antes da obra, nem as
trilhas percorridas. A realidade implica a história do fazer, os acertos, os registros que
aparecem nos tecidos, esculturas, fotos, vídeos, objetos, instalações e tudo aquilo que
representa seu campo de observação. Nada é mais importante do que compreender as
dualidades. Nada nos representa mais do que o entendimento do nosso corpo como
extensão da natureza. Somos a pedra que permanece, somos a terra fértil, somos as árvores
que renascem a cada ciclo. O corpo existe também nos restos, nos vestígios e fica inscrito
na memória. Com cabelos trançados e fibras vegetais, Liane evoca o fazer manual, o
confinamento e as redes de ligação entre as mulheres. Existe nesse processo a
amorosidade e a transformação, mas principalmente a necessidade de investigar temas
como o apagamento e o silêncio imposto às mulheres.
Em Dobras e Desdobras, cada obra estabelece um diálogo contundente com
histórias significativas para a artista. Vertebrada, o véu de 18 metros bordado com pedras,
conta do peso que a mulher/noiva carregará pela vida. É sobre a coluna vertebral, eixo
central do corpo que, simbolicamente, recairá a carga. Mas ninguém percebe, tudo fica
escondido, oculto nos tecidos da submissão imposta e socialmente exigida. O políptico
Ocultar Revelando explora os contrastes de luz e sombra e, simultaneamente, o
apagamento e a dissolução da mulher. Nas fotografias, as imagens surgem como um gesto
de questionamento e fricção. “Tempo e memória atravessam esse processo”, diz a artista.
E é impossível não lembrar de Diane Arbus, fotógrafa e escritora norte-americana,
dizendo que a “fotografia é um segredo sobre um segredo.” Sempre existirá algo oculto,
preservado e até mesmo silenciado em cada obra. A fotografia nos faz refletir sobre o
papel do observador na construção do significado e a sua importância na elaboração da
narrativa.
Em Campo de Forças, instalação composta por esculturas de fragmentos do
corpo fixados diretamente na parede, o espectador/observador é instigado a construir a
narrativa a partir do seu ponto de vista. O sentido permanece em suspensão, nada é
definitivo e a dualidade, recorrente no trabalho de Liane Roditi, desperta a imaginação.
Entramos então no campo da ambiguidade, onde a percepção individual vai determinar o
percurso dos elementos. Entrar ou sair, ocultar ou revelar, sugar ou expelir?
Transitando entre intimidades e ausências, Liane aborda em seus trabalhos
temas bastante pertinentes ao universo feminino, questionando o patriarcado, usando o
corpo, a ação e a imagem para pensar identidade, papeis sociais e opressão. Observa o
movimento, os desgastes e permanências da matéria. Avalia o peso que dificulta a
travessia. Procura, entre as diversas camadas, as marcas, as experiências inscritas, os tons
amarelados da passagem de tempo. Será a memória uma conselheira confiável? Será
possível imaginar uma nova realidade?
Dobras e Desdobras expõe um caminho de desafios e escolhas, um mergulho
na busca do que dizem vozes e silêncios, desenvolvendo e desdobrando questões que o
tempo e a sociedade insistem em apagar. A intensidade narrativa dos trabalhos de Liane
Roditi transborda numa coreografia que explora dualidades entre resistência e entrega,
força e delicadeza.
Isabel Sanson Portella